domingo, 11 de julho de 2010

Ester

Meus pés estavam doloridos, e minha alma também.
Vinha uma leve brisa do atlântico em minha direção, como se estivesse me chamando para dentro do mar, me envolvendo com seu aroma salgado, com aquele azul infinito que só existe no céu quando não é no mar.
Eu já estava caminhando há algum tempo pela areia da praia, perdida na confusão de pensamentos acabei não notando para que lado eu ia.
Começava a escurecer, listras laranjas enfeitavam o céu azul escuro, logo iria chover.
O mar ficava mais agitado, como se estivesse me avisando de alguma coisa, as ondas vinham como se soubessem o que eu sentia.
Comecei a correr, precisava liberar a tensão de meus músculos, o vento batia em meu rosto com fúria, as casinhas na beira da areia ficavam para trás, tão simples e delicadas, e eu tentava não pensar em nada, olhava para frente, com a cabeça erguida.
Tentava não ter medo do que me esperava no futuro, a terrível solidão, fruto de minhas próprias escolhas, minhas decisões estúpidas e meu medo idiota de tudo aquilo que não conheço.
Fui perdendo a vontade de correr, sentei na areia úmida, a maré já começava a subir e eu ainda estava ali, com medo de ver pessoas, de me socializar com o resto do mundo.
Deitei na areia e fechei os olhos, ouvi barulho de passos, abafados pela areia e pelo som do mar, sentei e olhei para o lado, me sentia miserável, mas não pude deixar de empalidecer quando vi quem chegava perto de mim.
O que ele estava fazendo ali? Virei meu rosto que aos poucos voltava a cor normal.
- Ester, Ester! - Ele vinha correndo, quase sem fôlego - Ester, olhe pra mim, Ester, por favor - ele implorou.
Eu olhei pra ele e mantive seu olhar por alguns segundos, mas não era forte o bastante para isso, seus olhos castanhos me censuravam sem nenhum pudor.
- Como você me achou aqui? Eu avisei para nunca mais vir me procurar, você não entende... - falei cabisbaixa, olhando para as minhas mãos que brincavam com a areia.
Ele sentou ao meu lado.
- Não Ester, é você que não entende. Você acha que eu te deixaria ir assim? Se lembra Ester que um dia eu disse que estaria sempre com você? E te encontrar pode ter até sido difícil, mas vale a pena só para olhar pra você mais uma vez, quem disse que era fácil escapar de mim? - olhei pra ele e vi seu sorriso, um sorriso quente, que deixa corações em chamas.
Ele pegou minha mão com cuidado, ela estava fechada, ele a abriu e tirou toda a areia que havia ali dentro. Eu tremia, com medo do que aconteceria. Ele me puxou para perto de si e me abraçou, meu ouvido estava colado em seu coração, e eu podia sentir seu perfume, aquela era sua maior marca. Pensei em como seria se eu estivesse sempre com ele, eu o amava, mas não poderia admitir.
Ele me beijou, um beijo forte, perfeito.
- Eu acho que te amo - ele sussurrou em meu ouvido.
Mantive-me calada, olhando para o mar bravo em minha frente e entre os braços de meu doce amor. A escuridão agora era total.
Não sabia qual seria a próxima vez que eu iria fugir, nem se um dia teria forças para tanto, mas agora ele estava ali e eu também, não falei nada, simplesmente me entreguei.


Eu sou uma dama Espanhola
Vou cantar um refrão assustador
Eu sou uma dama de Marte
E eu posso desapertar as estrelas
Eu posso ser qualquer coisa que eu vejo
(Ingrid Michaelson - tradução de "Lady in Spain")

4 comentários:

  1. Fugir não é bom, mas às vezes, só a tentativa pode valer a pena a tentativa. Gosto dos teus contos!

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  2. que ótimo post.
    Parabens pelo blog. Muito bom.
    Maurizio

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  3. Não adianta fugir, ainda mais do amor, porque se for verdadeiro ele roda o mundo só para encontrar a pessoa que fugiu. ótimo conto.

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  4. Sempre imaginei um momento assim...mas sempre consegui fugir, estranho?

    Beijos.

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Nunca sabemos de tudo.

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