quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

2010 vai ser 10!


Eu ainda lembro do dia em que eu escrevi na primeira página do meu diário: “Finalmente 2009”, e agora estou prestes a escrever no meu diário “finalmente 2010”. Passou-se Janeiro, lá se foi um Agosto e de repente o que restou fui somente uma semana. Um último sábado, uma última quarta, o último dia de um ano que já foi novo... Mas agora é velho.
Quantas centenas de resoluções foram feitas para 2009? E quantas milhares vão ser feitas para 2010? Incontáveis.
2009 foi ano de inovar, eu mesma disse isso há quase um ano atrás em um texto postado aqui nesse blog, eu o escrevi dia 2 de Janeiro, em um dia chuvoso de Florianópolis, em que nada mais eu tinha a não ser ler e escrever. Fiz os dois, e recebi em troca um texto maravilhoso.
2009... O tão sonhado 2009 já passou, e lá vou eu para o primeiro ano, lá vou eu para mais um ano de pensamentos transgênicos. Percebi que eu amadureci bastante em muito pouco tempo, as minhas postagens mostram isso, as vezes eu até acho que eu tinha medo de escrever. E às vezes ainda tenho, vou cautelosamente atrás do pote de ouro que todo mundo que achar, poucos conseguem, e esses ainda por cima não valorizam.
2009, o ano de “acordar cedo”, o ano dos choros sem soluços, o ano das lágrimas vazias, e às vezes sem significado.
2009, o ano das promessas, o ano em que eu aprendi que amor platônico existe sim, mesmo às vezes não acreditando em amor. O ano da saudade, das amizades novas e estranhas, o ano em que mentiras foram solucionadas com abraços e choros. O ano em que eu conheci o significado de “ela morreu”, sim, foi um ano importante. Eu me conheço mais, e sei identificar o que é ou não pro meu bico.
2009, o ano de amizades que ficaram distantes, e outras que se aproximaram, o ano em que senti saudades de brigar, sorrir, e ser chamada de baixinha bobinha por alguém que não vejo a mais de um ano, um ano meio triste... Mas ao mesmo tempo feliz.
Tudo teve certo equilíbrio, desde a saudade até os sorrisos, desde os abraços até os descompromissos. Tudo, definitivamente tudo.
Espero que o ano de todos vocês tenha sido tão completo quanto o meu, por que se há choro tem que ter sorrisos, se há morte ainda existe a vida, se há decepção é porque existe o perdão, e se há tristeza é porque existe a felicidade para predominar.
Eu desejo há todos vocês que 2010 seja um ano maravilhoso, em que o prazer de viver, os sorrisos, o perdão e a felicidade sempre estejam no mesmo caminho que vocês. Não há nada mais maravilhoso do que um novo ano para pelo menos fingirmos que tudo vai começar do zero, e que pelo menos fingindo tudo comece maravilhosamente bem!
Que 2010 tenha muita saúde, muito amor, e muita paz nos corações de todos. Por que a vida é feita disso, e essa é a nossa fonte de energia.


Júlia, Beth e Alessandra
Agradecimentos por esse 2009 maravilhoso:
Obrigada meus amigos, minha família, vocês é que fazem a Alessandra aqui ter personalidade.
Teve aqueles que deixaram Saudades. Obrigada Alana por fazer parte da minha vida, nunca vou te esquecer não importando quantos mil quilômetros existirem de distância, eu te amo.
Houve aqueles que sentaram na pedra e se acomodaram. Elisabeth minha querida amiga, o que seria de minha sem você em loira? Valeu todos os momentos, desde choros em público, conversas em uma sacada na chuva, sonhos voando pela cidade, ironias esquecidas embaixo da pedra, e risadas lembradas sobre uma ponte qualquer, te amo muito mesmo.
Conheci pessoas novas que mudaram meu 2009. Josiane Letícia, você que vem me apoiando pra continuar escrevendo, me ajudando nos temas, imagens, deve estar cheia de mim não é? Mas saiba que com suas pequeninas ajudas mudou totalmente minhas noites de escritas silenciosas, transformando elas em no mínimo algo menos solitário, eu te amo muito.
Há aqueles que passaram um curto período de tempo comigo esse ano, mas que fizeram ele valer a pena. Brendha minha amiga black power, você fez a diferença mesmo nos dias em que não nos agüentávamos mais naquelas aulas chatas, sinto um pouco de saudades de quando éramos menores, te amo muito minha Índia Iemanjá.
Também existem os amigos estranhos, sim Guilherme Trein, aqui está sua dedicatória, no começo do ano eu cresci muito com seus “ensinamentos” não tão seguros, e aprendi que gostar não é amar, e falar não é fazer. Você fez muito a diferença, e você merece sim um espaço aqui, te amo muito seu bobo: atacado/seqüela.
E há também aqueles que eu denomino de pessoas da lua. Júlia querida, um dia a gente prometeu em cima de um brinquedo no parque de diversões que nossa amizade ia ser pra sempre, tínhamos 10 anos, quatro anos já se passaram, e a gente aprendeu o que um namorado faz não é? Mas você é importante em minha vida, com ou sem namorado vou estar sempre aqui, te amo muito.
Mãe e Pai eu amo vocês, e meu 2009 eu dedico a vocês.
Mariana e Juliana, as pessoas mais estressantes, mas são as que eu não poderia viver sem, e amo vocês quatro mais que tudo e todos desse mundo e nada nem ninguém poderia nem sequer imaginar o quanto são importantes.
Um beijão, da amiga/filha/irmã Alessandra Jungs de Almeida.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Cair do salto

Sabe o que eu odeio? Pessoas que sobem no último nível do salto, quando não conseguem andar nem com uma mísera sapatilha.
Vou fazer uma simulação literal para todos vocês, vou tentar mostrar como deveria ser a história de Josefina, mas não é.
Josefina é uma menina muito vaidosa e acabou de comprar um calçado novo de salto alto. Chegando em casa ela senta no sofá e grita “MÃÃÃE, traz meu calçado novo”, a mãe de Josefina que é uma mulher que adora fazer as vontades da filha traz o calçado para ela, ele tem um salto altíssimo, que deixaria modelos como Carol Trentini no chinelo. Josefina coloca o calçado, e com muita rapidez se levanta, ela tenta dar o primeiro passo, mas cai, tenta se levantar sem sucesso algum. Então ela aprende que ela deve subir os cm do salto aos poucos e não ir direto pro salto quinze. Josefina aprendeu. Josefina foi inteligente e trocou o calçado, para não ficar tropeçando cada vez que erguesse uma perna.
Bom, essa mini-história que eu acabei de contar não tem nada a ver com a realidade. Não acreditem nela, por que na história verdadeira não existe nenhuma Josefina, provavelmente ela tem um nome que está na moda, e existe mais um trilhão de pessoas com o mesmo, então para não machucar/ofender minhas leitoras vou continuar com Josefina.
Josefina é uma menina muito vaidosa, ela tem um cabelo chapado, e adora quando dizem que ela é linda, ela se arreganha toda por dentro, mas exteriormente ela fica se fazendo dizendo que “aquele elogio não é pra ela”. Ela não comprou somente um calçado novo, ela já comprou milhares de calçados novos, e um a mais não faz diferença alguma. Ela ainda está na loja experimentando o calçado, está em dúvida entre aquele rosa lindo e maravilhoso e aquele preto mais maravilhoso ainda. Então ela liga pra mãe dela com uma voz de menina sem sorte e diz: “MÃÃÃE, eu não sei qual escolher”, a mãe dela que adora fazer as vontades dela diz: “Pode pegar os dois minhas filha”. Ela coloca os calçados pela primeira vez e caminha como uma princesa, sem tropeçar, quase flutuando. Ela é uma garota feliz... Mimada e feliz.
Vamos fazer uma “visualização” das duas histórias, na primeira a Josefina é uma menina mais acordada, ela sabe o que é real ou não, ela errou, e tropeçando aprendeu o que é certo ou errado. Figurativamente essa história seria de uma garota que com seus próprios erros e seus próprios pés descobriu algumas verdades sobre a vida, mesmo a mãe dela mimando-a.
Já na segunda história Josefina precisa que alguém a chacoalhe para o mundo real. Figurativamente essa garota não sabe se errou ou não, se ela ofendeu alguém ela não notou, nem percebeu, deixou passar. Ela ainda está cega, surda e muda para o que se passa ao seu redor. O mundo dá voltas, mas e daí? O carro também.
E a segunda garota é o tipo que eu odeio, tem tanta coisa melhor pra se preocupar enquanto o mundo fútil ocupa a cabeça delas. O que são sapatos, cabelo e unhas quando não temos nossa própria alma? Eu digo a vocês: NADA absolutamente NADA.
Eu acho que toda a garota tem que se preocupar consigo mesma é claro, mas isso até um certo nível. Porque se sua conversa sobrevive na base disso cuide-se, você tem sérios problemas.
E sabe o que garotas fúteis precisam? Um balde de água fria. Sim, congelando, que melhore até a alma e façam a realidade aparecer como um jato na memória. Até eu preciso em alguns momentos, por que quem nunca se odiou por algo que fez, por favor, atire a primeira pedra. Desde a vez que bateu o pé no canto do guarda-roupa até o momento em que terminou algo que deveria ter continuação. Sim, todas nós temos algo de Josefina.

Imagem: Google

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Será que merecemos mais tempo aqui?


A dez anos atrás eu tinha cinco anos, a dez anos atrás eu era filha única, não sabia ler, e muito menos pensava em escrever. Há dez anos atrás meu maior sonho era ganhar uma bicicleta, eu tinha um cabelo corte chanel e naquela época ele era liso, há dez anos atrás eu pensava que era possível ser astronauta, há dez anos atrás as pessoas achavam que o mundo acabaria em 2000, e também achavam que era impossível alguém fazer o clone de um humano. Naquele tempo ainda era possível atravessar o México clandestinamente e ir para os Estados Unidos. Era normal ter três filhos e as crianças de cinco, seis e sete anos tinham medo de vampiros.
Mas isso tudo foi há dez anos atrás, hoje estou com quatorze anos, tenho duas irmãs mais novas e não iria conseguir viver sem elas. Sei ler, e amo isso quanto qualquer outra coisa, hoje em dia não só penso em escrever como tenho isso como o meu futuro. Não ando mais de bicicleta, e agora corte chanel é algo fora de moda, meu cabelo se ondulou, e só a chapinha me salvou. Depois desses dez anos descobri que só um brasileiro foi pra Lua, e segundo calendário maia mundo vai acabar em 2012 e o ano 2000 já eras. Hoje em dia os cientistas não só pensam em clonar pessoas, eles querem e podem, e só uma coisa nos salva: o governo. Nos dias de hoje é impossível atravessar o México e ir para os Estados Unidos, são poucos os que conseguem, então fikdik, se quiser ir morar lá case com alguém que de lá. É o jeito mais fácil. Quem tem três filhos hoje em dia é chamado de maluco, e ridicularizado pela sociedade, e as crianças de cinco, seis e sete anos, queriam ter um vampiro só pra si, tamanho é o amor por um tal Edward Cullen.
Uma década, e parece que foi ontem que eu achava os garotos idiotas, e dizia que eu nunca ia casar. Mas não foi, e essa década, a primeira década do milênio, ela mudou a vida de muitos, quantas milhões de coisas aconteceram. Gripe suína, uma Olimpíada no Brasil, prisões quase explodindo, um presidente negro nos Estados Unidos, serial killers sendo presos, crianças caindo de prédios, outras com agulhas no corpo. Estupros, mares subindo, a terra sumindo. A água acabando, e lixo aumentando. As geleiras derretem e o Greenpeace ainda é preso por tentar lutar contra isso.
Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez...
Então eu pergunto o que você espera para 2010? Ou até para a próxima década?
Qual faculdade seguir? Errar ou acertar? E será que eu vou mesmo passar no vestibular? Encalhar ou desencalhar? Será que eu vou achar um dia um cara de quem gostar? Pessoas novas com quem conversar, amigos perdidos entre os escombros de um ano perdido. Estudar, estudar e estudar, será que existe uma magia para eu passar? Lutar contra o choro, contra a indiferença, ser eu mesma, querer mais do que eu posso.
Jogar na mega-sena, um milionário a mais, e dois reais a menos aqui e ali. Dez reivellons, dez anos diferentes, dez anos que jamais voltarão, memórias das conversas jogadas fora e de textos escritos na adolescência, memórias do tempo em que éramos filinhos de mamãe e não sabíamos absolutamente nada da vida,  memórias dos almoços com a vovó, e de como era bom ganhar bonecas mesmo tendo doze anos. Memórias, lembranças, e talvez algumas fotos. É só o que vai ficar.
Os anos pulam de um em um e derrepente eu já estou com vinte e um. Só espero ter algo que contar. Não só aos meus filhos,  mas aos filhos dos meu filhos.
Você já se imaginou vovó? Pois tente, porque em algum momento esse dia vai chegar, preparados? Pois comecem a contar, dez anos não é mais do que qualquer um pode esperar.
Você ainda acha que o mundo vai explodir? Ou todos nós merecemos mais tempo aqui? Sonhos, mentiras, amigas traíras, tudo isso e muito mais para a nova década, espere pra ver, porque é você o protagonista da sua própria história. Faça valer, não só a sua, mas também dos que o cercam. Os vilões existem sempre. Por que uma história de amor não vale se não tiver um trilhão de coisas que possam te separar do que foi feito para você. Ele ou ela, o sexo você também pode definir. Afinal, estamos no século XXI, e dizem que nele tudo pode acontecer. Viva, aprenda, sorria, coma coisas verdes e faça exercícios físicos, dizem que essa é a fórmula para ser uma pessoa centenária, faça isso e espere noventa anos. Então, você me conta se o século XXI foi mesmo "O seu século".
Mas quem sabe tudo vá explodir, será que nós merecemos mesmo mais tempo aqui?

Imagem: Google

domingo, 27 de dezembro de 2009

Doces palavras

Palavras, uma das coisas mais importantes que o homem já inventou, machucam e fazem sorrir, unidas formam armas mortais. Se encontrarmos alguma por ai logo queremos nos adonar, não deixamos ninguém tocar, por que tal frase foi ele que inventou, e não você seu plagiador.
A verdade é que o cuidado com elas deve ser extremo, uma palavra solta no ar, perdida entre respirações e expirações pode fazer mais que uma pessoa sofrer, pode ofender, pode mostrar que a realidade é mais do que aquele mundo abstrato em que vivemos, pode fazer os cegos verem o mundo, e o surdos ouvirem o barulho do mar. Palavras... Palavras...
Elas fazem a vida dos escritores, elas são as lágrimas de alguns artistas, palavras, elas fazem a humanidade, sem elas nada seriamos além de pobres mortais, não teríamos como explicar nossa personalidade, e nem como dizer de quem somos filhos, palavras, essas sim são importantes.
Palavras... Doces palavras, eu tento lhes explicar o valor delas fazendo o uso das mesmas, você não vê o quanto são importantes?
Palavras... Doces palavras, algumas são amargas e outras impulsionadas por pessoas impulsivas, palavras coloridas, palavras movidas pelo som leve de lábios algumas vezes descrentes na vida, palavras de orgulho, palavras de ira, palavras que fazem a diferença. Todas fazem, todas são importantes.
Palavras, aquelas que podem fazer você cair, mas também podem fazer voar. Todas são palavras, cada uma com seu próprio significado.

Imagem: Google

sábado, 26 de dezembro de 2009

O galpão


- Pra onde vocês estão me levando? O que estão fazendo comigo? Dá pra me largar, tira isso de mim! – cordas apertavam meus braços, e minhas pernas tinham acabado de ser soltas.
Eu não sabia quem esses caras eram, e nem o que queriam, eu estava apenas saindo da escola, como uma garota normal, eles simplesmente me puxaram tapando minha boca com uma fita imprestável, por que eu consegui tira-la para gritar, o que foi inútil, pois eles fizeram eu engolir os gritos com uma faca em minha garganta. Me colocaram dentro de uma van, mas agora eu já tinha sido retirada dela, como uma mercadoria, sem sentimentos, e sem dor.
Sai cambaleando de lá, meus pés tocaram o chão como se tivesse uma energia poderosa que não deixasse eu entrar em contato com nada. Estava tonta. Os dois homens de capuz preto me levaram pelos braços, quem eram eles afinal?
- Calma, calma – eu tropecei, e aquilo doeu, pude ouvir o barulho de meu osso estralando - calma eu disse, meu pé está doendo.
Não só meu pé, meus braços estavam latejando, parecia que meu coração havia trocado de lugar e ido para os pulsos, e o pior de tudo: eu não tinha idéia de onde me encontrava. Aquilo era assustador.
- Por favor, por favor, me solta – eu estava manca, com uma dor impossível de rejeitar em meu pé, e ainda por cima implorando, eram nessas condições terríveis que eu ia terminar minha vida? – eu não fiz nada pra vocês!
- Você não fez, mas seu pai fez –  essa voz imponente veio por trás de mim, parecida com aqueles filmes que todo mundo já olhou milhões de vezes. Mas dessa vez era comigo, impossível não sentir medo, tremi, mas me mantive firme.
- Eu não conheço meu pai – e era verdade, minha mãe tentou esconder quem era ele até eu ter doze anos, então ela me contou que ele era um “criminoso de merda”, parece que ele melhorou não é?
- Mas nós conhecemos – ele falou em um tom quase irônico, deu uma risada que arrepiou até meus pelos dos braços.
- Mas e daí? Eu não tenho absolutamente nada a ver com isso, por favor, me solta, meu pé está doendo – lágrimas, sim, as tão adoradas lágrimas.
- Tudo bem tudo bem, solta os braços da garota, mas, por favor, menina, não tente nada contra mim, tudo bem?
Mexi minha cabeça em movimento positivo, com os olhos baixados, com o desprezo quase subindo a cabeça. Eu precisava acabar com isso. E pela primeira vez olhei ao meu redor, eu estava dentro de um galpão, um galpão velho e mal feito, esse era meu fim então? Não, não, isso não podia ser o meu futuro, não o meu. Ergui a cabeça para segurar as lágrimas, respirei fundo, e tentei não chorar novamente.
Olhei para aqueles homens, eles estavam com armas, sim, armas, dentro das calças, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ouvi um barulho de um carro estacionando, não era só um carro, eram vários carros. Mas parece que o senhor “arma na calça” não percebeu isso. Será que eram mais capangas para me fazer sofrer?
- Ele chegou, peguem a garota, ligeiro, vamos lá! – e mais uma vez aqueles homens grotescos me pegavam pelos braços.
A porta do galpão se abriu, e apareceu somente um único homem, totalmente fardado, quem era ele? Meu pai não era policial, nem agente de nada, ele era um criminoso não era? Era isso que mamãe me disse. E o barulho dos outros carros que eu ouvi? Eu estava tonta desse jeito? Fechei os olhos e respirei. Mas de nada adiantou, continuei nervosa.
- Solte ela agora, estou mandando – não sei quem ele era, mas estava tentando me salvar, e isso já era bom demais.
- Agora você quer sua filhinha não é? Mas na época que era um bandidinho que trabalhava pra mim, não deu a mínina para ela.
- Isso já passou, solte ela, eu só queria o bem dela naquela época, por favor a solte – eu senti a emoção na voz dele, independente de ele ter me deixado sem pai por dezesseis anos, eu dependia dele agora, mais do que nunca.
- Você tem furado com tudo que eu faço, e alguém vai pagar por isso, e se não for você vai ser ela.
- Tudo bem, tudo bem, então vai ser eu, solte ela e me pegue, vamos lá, faça isso, não te peço mais nada, pode fazer o que quiser comigo, mas por favor deixe ela viva.
- Nunca pensei que seria tão fácil acabar com você. Nunca pensei que esse fosse seu ponto fraco. A CIA vai perder mais um chefe RÁRÁRÁ – ele era maluco, sim ele era maluco.
Meu pai, como é estranho pensar assim, o meu pai vai salvar a minha vida, a vida de uma garota que ele nunca viu, ele foi se aproximando, e quando eu vi, não estava mais presa aqueles desconhecidos, e nem meu pai. Um dois tiros, eu disse que eu havia ouvido o barulho de mais de um carro. Policias corpos no chão, vi sangue, e desmaiei.
- Acorde, acorde, tudo bem? – abri os olhos devagar, e vi, não era sonho, não era minha imaginação maluca, era mesmo meu pai.
- Pai, é você mesmo? – minha voz era fraca, meu pé doía, e eu estava deitada no chão sujo, o barro gosmento, e um cheiro horrível de sangue.
- Sim, sou eu – e de repente na da mais importou, nem o barro, a dor, e nem o cheiro de sangue, aquele era meu pai, e estava ali para me salvar.
Eu sorri, ficaria deitada ali o tempo que fosse necessário, só olhando para sua cara preocupada, a cara de um pai que nunca havia visto.

Imagem: Google

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Amor de Natal

O natal iria ser como todo o ano, amigo secreto, janta, bebês chorando, crianças correndo. Nada diferente, nada que pudesse me surpreender. A única coisa que iria mudar seria os amigos de meus pais, iam vir de longe, mas e daí, aquele filho crianção deles que eu não via a uns cinco anos, era meio triste, principalmente pra mim. Eu queria passar o natal com as minhas amigas, elas já haviam me convidado, e eu já tenho dezessete anos, tenho direitos, mas não é assim que meus pais pensam. As pessoas já estão chegando para a janta, vovô e vovó, os netos, e quantos netos... Quase incontáveis, lastimável, para mim é claro, por que parecia que todo mundo estava amando aquilo. Não parecia, eles estavam mesmo amando.
- Alô! - era mu pai atendendo ao telefone, como ele conseguia gritar tanto só pra ter uma misera conversa no celular - claro, claro, nós esperamos.
- Quem era? - minha mãe perguntou com uma voz preocupada.
- Era o Jorge, furou um pneu, mas eles já estão chegando - sim, os amigos de meus pais.
E lá se vai mais meia hora de espera da minha vida, sentada naquele sofá com crianças gritando meu nome por toda a parte eu percebi que ser a neta mais velha não é uma das coisas mais maravilhosas desse mundo.
- Eles chegaram, eles chegaram - acho que eu nunca tinha visto meu pai tão animado, parecia que o mundo ia acabar, mas se acontecesse parecia que ele ia morrer feliz só de ver o amigo de infância.
Ele foi abrir a porta para eles, nem esperou eles apertarem a campainha. Eles se abraçaram tão forte que até eu fiquei sem ar, olhei para o carro deles, vi a tal da Dona Elisa saindo de lá. A porta de trás do carro se abriu, eu vi um "deus grego" saindo de lá. Aquilo era algum tipo de brincadeira? Aquele não podia ser o filho deles, tudo bem, se passaram alguns anos, mas ele estava muito perfeito. Parecia o garoto dos sonhos... e eu não lembrava o nome dele, como eu sou brechenta, bom eu ia dar um jeito, sim ia dar um jeito. Cumprimentei a Elisa, o Jorge, e então chegou a vez dele. E bom, o cheiro dele era como ele, maravilhoso. Um, dois beijos, que maravilha, meu natal estava indo do pior ao melhor.
Nossos pais estavam tão envolvidos em botar o papo em dia que nem notaram quando eu sai da sala e fui para a varanda, eles podem não ter notado, mas ele notou, e o pior de tudo é que eu ainda não sabia o seu nome.
- Está quente não é? – ele pediu discretamente, jogando o cabelo pra trás, como ele era sexy.
- Sim, muito. A que ponto nós chegamos quando não temos assunto, falar do tempo, que beleza – será que eu fui grossa? Eu sempre sou, mas acho que ele deixaria passar.
- A me desculpe, então, mudando de assunto, não queria ser mal-educado nem nada... Mas eu ainda não sei seu nome.
- Então estamos kits, porque eu também não sei o seu – ele riu, eu ri. Dois risos leves em uma noite de verão.
- Meu nome é Augusto, prazer – ele estendeu a mão.
- E o meu é Mariana, muito prazer – eu estendi a mão. E naquele toque inocente, eu senti o que eu jamais havia sentido antes, me arrepiei, olhei nos seus olhos e percebi que havia algo ardendo dentro dele, dentro de mim. Fiquei vermelha, ele sorriu, como se tudo estivesse em transição. O mundo havia parado, e só restava nós.
- Essa noite será especial – ele falou antes de mandar um beijo com seus lábios quentes e macios. Eu correspondi.
O que eu ouvi poderia se qualquer coisa, sinos tocando, a magia no ar, as renas do Papai Noel, mas nada poderia me separar dele. Ele pegou meu rosto com as duas mãos e disse com sua boca quase tocando a minha:
- Você... É você que eu quero.
Ouvi o barulho das crianças chamando pelo meu nome, eu sorri, ele sorriu, e não importava quantas milhões de pessoas chamassem por mim, ou por ele, a mão dele não soltaria a minha, e nós continuaríamos ali, um do lado do outro. Pra sempre e eternamente.
Imagem: Google

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Política e blábláblá


Segunda feira à noite eu fui pra Porto Alegre, a capital do meu tão amado Rio Grande do Sul. Eu e minha tia fomos com um ônibus do CPERS (Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul), chegamos lá as sete da manhã, os professores e a brigada militar estavam fazendo uma paralisação na praça em frente à Assembléia Legislativa, no Palácio Farroupilha.
Eu e mais umas quinhentas pessoas (sim eu disse quinhentas) ficamos na fila pra entrar na Assembléia e ver a votação no Plenário durante quase três horas. Então enquanto as quinhentas pessoas ferviam no sol quente por quase três horas os coronéis chegam sem nem ao menos olhar para aquela fila gingatesca, passam por todos e vão entrando (a qualé, só por que eu não ganho trinta mil por mês não quer dizer que eu não seja gente), então os soldados ficam bravos e começam a brigar, e sobre isso eu posso dizer seis coisas:
1ª - Eu e minha tinha não íamos ficar lá pra ver gente brigando
2ª - Eu odeio a Yeda
3ª - Perdi quase três horas da minha vida
4ª - O maior sempre come o menor
5ª - Os deputados estão pouco se lixando pro povo, o que eles querem mesmo é garantir o voto deles (o que garanto que todos vocês já sabiam, mas eu vivenciei o negócio, e quando vemos tudo de perto fica mais claro)
6ª - Aos quatorze anos eu descobri que o governo do meu estado é uma merda, me decepcionei.
Depois disso (a fila, as brigas, as gritarias, a nossa saída ligeira de lá, e a minha decepção), eu e minha tia fomos visitar os sebos de livros, o que é bem interessante, tipo três livros por dez reais, sim, foi legal. Voltamos para a praça e fomos visitar o gabinete de um deputado, o Fabiano Pereira, amigo da minha tia, é que ela é vereadora aqui na minha cidade, mas enfim, ele não estava lá. Ele ainda estava no plenário, na votação dos projetos da brigada militar e dos professores.
Fomos embora e no caminho encontramos o tal deputado (maior gatão), era horário de almoço, e ele havia saído do plenário, ele me deu um beijinho e tudo mais (ui), e então finalmente saímos da Assembléia Legislativa, lá encontramos aquela enorme mobilização sem ar condicionado eu vi que a realidade é bem outra e os deputados querem mesmo é garantir o deles, o que eu já falei nesse mesmo texto, mas enfim, o fim dessa história toda ficou o seguinte, de 55 deputados 52 votaram contra os projetos, só por causa da mobilização, e porque ano que vem é ano eleitoral, eles se sentiram intimidados, bom, deu que cancelaram o projeto da brigada, mas o projeto dos professores ficou para ser visto ano que vem, em outra sessão, mas eu sei que não vai dar em nada, por que eles querem garantir que a população vote neles, e como tem mais de 120 mil professores no Rio Grande do Sul, sabe né...
Bom, então beijos, sei que eu falei muito sobre política, um assunto que poucos gostam, mas eu acho que é uma coisa que se todos se interessassem o Brasil iria estar mais desenvolvido. E além de tudo eu fiquei mais informada, e informação é uma das melhores coisas pra se ter uma boa conversa, ou pra escrever um texto sobre política em um blog de pensamentos. Ai vai a foto da Assembléia, lugar onde eu fiquei quase três horas na fila (eu adoro ficar dizendo isso, parece um tipo de escândalo no qual eu fui a vitíma).

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Uma chance de viver

Eu quero fazer um pedido a você, eu quero que você imagine, somente imagine, que você tem uma doença em estado terminal. Você sabe que daqui a um ano você vai morrer, você não vai poder mais sorrir, não vai poder amar, não vai poder sonhar, vai deixar de ver as cores e seus amores, não vai poder mais reclamar e nem brigar. Você vai morrer, e é só isso que você sabe. Não tem mais jeito, não tem cura, você se olha no espelho e vê a morte, e a tristeza vem, você fica abatido, pálido, não vê mais sentido em viver um ano.

Mas então eu pergunto pra você, o que você faria no resto dos seus dias?

E você então tem mais de mil escolhas:

* Chorar, chorar e chorar;
* Ficar se lamentando e perguntando a Deus porque ele fez isso com você;
* Tentar viver, mas a vontade é tão pouca que você desiste antes mesmo de tentar deverdade;
* Se matar;
* Se casar e ter filhos;
* Fazer uma insceminação artificial;
* Fingir ser feliz para não deixar seus parentes e amigos tristes;
* Ser realmente feliz;
* Viajar e conhecer o mundo;
* Estudar;
* Escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho;
* Fazer uma instituição com seu nome;
* Ou viver, viver e viver o máximo que puder.

 Essas são alguns itens de escolhas, triste não?

ÓBVIO QUE NÃO!

E sabe porque? Por que querido(a) amigo(a) você não tem uma doença terminal. Tem a vida toda pela frente e pode fazer tudo isso e muito mais. Valorize sua vida, porque existem pessoas com doenças terminais de verdade, isso não acontece só nas novelas ou filmes. É REAL! As pessoas com doenças terminais dariam tudo pra poder estar em seu lugar, então viva, aprenda, leia, ame, chore, ria, pule e grite, por que se existe um momento com certeza é esse que você está vivendo.
Diga não ao choro por causa de um fim de namoro, diga não aos seus nervos por causa de uma amiga traíra, uma hora ou outra todos temos de suportar coisas terríveis, eu sei. Mas enquanto essa hora não chega por favor não se lamente pelos problemas errados.
Enquanto eu escrevo isso pessoas estão morrendo, enquanto você chora pessoas estão morrendo, enquanto bebês nascem pessoas estão morrendo. Sua vida vale mais do que qualquer coisa, cuide-a ao máximo.
Imagem: Google

PS: Se você conhece alguém em estado terminal, ou é alguém em estado terminal, por favor não se ofenda, eu só quis mostrar as pessoas que é melhor viver sorrindo do que viver chorando, beijos&queijos :*

domingo, 20 de dezembro de 2009

A (maldita) sala de aula.

Férias, finalmente as tão adoradas férias. Ainda lembro do primeiro (maldito) dia de aula, eu entrei na minha sala chorando, sentei em uma mesa bem no canto. Não era isso que eu esperava para o começo da oitava série, antes da aula começar reuniram todos os alunos no refeitório para dizer quem iria para qual turma. Decepção. Ódio. Tristeza. Isso foi o que eu senti em uma certa segunda-feira de março.
Eu olhava para cima para as lágrimas não caírem. Mas elas caíram, a sala ao meu redor não era nada convidativa, hoje mesmo, no fim do ano ainda tenho pavor da pintura marrom daquela sala. Enquanto isso minha melhor amiga ficava na sala ao lado, que tinha uma pintura verde fraca, a turma dela era comportada, não tinha repetentes, e antes da aula começar eu entrava naquela sala e sentia um calor humano que era impossível de sentir na minha (maldita) sala de aula, principalmente nos dias frios.
Em geral minha sala era dividida em panelinhas, mas acho que seria um pouco de falta de ética eu dar nome para vocês, o máximo que posso dizer é que eu fiquei traumatizada com essa turma, ovelhas negras, garotos retardados, meninas mal-educadas, tarados, pessoas fúteis demais, e tarados novamente. E pra piorar minha situação, me ferrei em matemática no terceiro trimestre. É que é muito fato que eu não consigo aprender matemática com os professores, simplesmente não entra na minha cabeça, e nos anos anteriores eu sempre tinha amigos que me ensinavam. Tenho que agradecer que nos primeiros dois trimestres tive colegas que me ensinaram, mas me isolei no fim do ano e tomei bomba. Zero valendo vinte não é nada mal não é? O que vocês acham? Admitam, agora deixei todos vocês pensando que eu sou retardada. Bom quanto a isso nada posso fazer, opiniões e opiniões, o mundo se resume a isso não é?
Mas ficar sozinha teve um lado bom, posso fazer qualquer conta que envolva movimentos retilíneos, curvilíneos, e mistos, me encantei com a velocidade média, e até aprendi a calcular o tamanho de uma pista de fórmula um, sim eu prestei atenção nas aulas de ciências. Pra melhorar a situação devo dizer que esse ano foi a primeira vez que fui líder de turma, e foi divertido, apesar das milhões de brigas que tive que aguentar para decidir qual seria a camiseta da turma, e para onde iríamos viajar, mas no final nada foi feito, ficamos sem camiseta, e sem viagem.
As aulas de artes foram as mais solitárias, porque a professora deixava todos fazerem os trabalhos sozinhos, e como em cada aula ela dava um trabalho, o resultado foi: calos na mão direita de tanto pintar aqueles desenhos enormes, e algumas vezes até criativos. Mas no final do ano não recebi nenhum trabalho de volta. O que é uma decepção, porque eu adoro guardar trabalhos, tem gente que faz coleção de tampas de latinha, outros de bolita, mas eu guardo trabalhos, tenho todos os meus desde a terceira série, é bem interessante, eu sempre rio muito quando resolvo olha-los.
Enfim, esse ano eu aprendi que mesmo passando quatro horas do meu dia com os nervos a flor da pele eu sobrevivo, mesmo morrendo de nojo do cheiro horrível de alguns garotos, ou com raiva das professoras que me pegam colando, sim eu sobrevivo, todos sobrevivemos.

PS: E eu ainda tenho uma melhor amiga, aquela, da sala verde e cheirosa.

Imagem:Google

sábado, 19 de dezembro de 2009

Para o papai noel


Era uma noite qualquer de dezembro, mais uma entre as tantas outras noites quentes e escuras em Florianópolis, eu lembro que eu estava deitada com a cabeça no colo de minha mãe, devia ter uns quatro ou cinco anos, levantei num susto.
- Papai Noel, sim, Papai Noel, tenho que escrever uma carta pra ele - minha mãe e meu pai se olharam e até o gato que estava ao lado do sofá levantou a cabeça para ver o que estava acontecendo.
Hoje não lembro mais o nome do gato, não lembro meu endereço naquela rua, não sei que roupa estava usando quando escrevia a carta. Mas Papai Noel, aquela foi a primeira vez que escrevi uma carta, e foi para o senhor.
Na carta pedi uma casa na árvore, o que é uma coisa meio sem sentido pois não tínhamos uma árvore em nosso pátio. Depois de pronta deixei a carta embaixo de um tapete, para fora de casa, e quando acordei de manhã a carta não estava mais lá.
Agora tenho quatorze anos e desde lá nunca mais escrevi nenhuma carta para você Papai Noel, é verdade que também nunca ganhei uma casa na árvore, mas no final isso não importa nada disso importa. Alguns de meus sonhos ainda estão tão intactos e eu sei que independente da idade que eu tiver ainda poderei receber ovos de chocolate na páscoa, celebrar o dia das crianças, e até escrever uma carta para você, meu querido Noel.
Esse ano de 2009 foi um dos anos mais divertidos, é verdade que eu me dei muito bem com as palavras e sofri muito com números, eu juntei partes de mim e tentei colar com tenaz, o que não deu muito certo Papai Noel, mas tirando esses detalhes sórdidos foi um ano muito bom, para mim é claro, mas então no final do ano você para, fecha os olhos e reflete, eu estou bem, minha família está bem, mas será que é assim para todos? Não, não é assim para todos, eu sei disso, e bem no fundo todos sabemos.
Nós ignoramos o fato de que não é só na África que algumas pessoas passam fome, nas cidades do Brasil, independente se for Panambi, onde eu moro agora, ou Florianópolis onde morei a alguns anos, as pessoas estão sofrendo, tentando ir atrás muitas vezes de uma fatia de pão, ou uma colher de feijão.
E nesse ano, enquanto vamos estar comendo nosso peruzinho assado, e fazendo nosso amigo secreto, essas pessoas podem estar deitadas em cima de um papelão achando suas vidas tão insignificantes quanto qualquer outra coisa. Isso é triste Papai Noel, muito triste.
E então as pessoas do peruzinho e do amigo secreto perguntam, o que eu devo fazer? O que você deve fazer meu querido amigo, é isso que eu iria dizer Papai Noel, que pra começar esteja consciente do mundo que gira ao seu redor. Você deve parar de se lamentar que não tem aquela bolsa ou aquele celular, porque eu garanto que se seus pais pudessem eles te davam, mas quem sabe eles podem, mas você não merece. Chega de chorar dizendo que quer morrer, tem gente morrendo de câncer, AIDS, tem gente sendo morta por balas perdidas por bandidos e ladrões, enquanto você chora deitada na sua cama fofinha, dizendo: "A MINHA VIDA É INSIGNIFICANTE!" Eles dariam tudo pra ter 1% do que você chama de porcaria de vida, então acorda meu filho, se você tem mais de doze anos está na hora de mudar suas atitudes, mas quem sabe seja tarde demais, no fim você casa com um cara rico, pinta os cabelos de loiro, é linda e magra, não fez faculdade, mas e daí? Seu marido te banca mesmo, vive em um mundinho só seu em que você faz plásticas para levantar a bunda e deixar os lábios mais grossos, você vive para isso afinal.
Eu sinto pena dessas pessoas Papai Noel. Mas será que elas merecem a minha pena ou qualquer outra coisa parecida que venha de mim? Sabe o que me dá vontade de fazer com a garota que diz: "o meu pai é um idiota, não quis me dar aquele tênis" ou "ai, eu não vou ganhar minha viagem pra Disney"? Me dá vontade de achatar a cabeça delas chão, pra aprenderem a sofrer e ver que elas não são o centro do mundo nem o centro das atenções, isso me entristece, porque eu não gosto de agir com violência, por isso prefiro as palavras.
Essa carta Papai Noel não são para as pessoas que estão morrendo de fome ou de frio. Por que muitas delas quando morrerem eu tenho que certeza que terão a alma tão limpa quanto água pura. Mas as meninas que não puderam ir pra Disney, ou as mulheres que foram descobertas ao trair o marido, essas sim, merecem que alguém as leve para o caminho certo. Então meu pedido é que o senhor faça essas pessoas, tanto homens quanto mulheres deixarem de ser tão fúteis, e pensarem mais nos outros.
Feliz Natal para você Papai Noel, mande um beijo para a Mamãe Noela por mim.
                               Um milhão de abraços  Alessandra Jungs de Almeida.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Fatos reais

Eu nunca fiquei incomodada com uma música, não, nunca. Acho que a palavra certa poderia não ser incomodada, é que é uma coisa meio indefinida.
Eu sou super apaixonada por Bob Dylan, só que realmente as traduções de muitas músicas dele eu não conheço, e hoje à tarde eu estava deitadona no sofá olhando o TOP TOP da MTV, é um programa em que cada semana tem um tema, e o de hoje era Músicas com fatos reais, eles escolhem dez músicas e vão mostrando do décimo lugar até o primeiro. A música Hurricane, do Bob Dylan ficou com o terceiro lugar. É uma música que fala sobre Rubin Carter, um boxeador, e ele era conhecido como Hurricane (Furacão). Rubin foi preso em 66, acusado de assassinato em primeiro grau, só que na verdade ele estava sofrendo racismo, ele teve que lutar muito para ser levado de novo a julgamento. Foi libertado, após 19 anos de prisão, em 85, declarado inocente. Na múscia Bob Dylan usa o nome de todos os envolvidos, Patty Valentine que era uma delas acaba o processando. Mas a música foi feita só uma década depois que os assassinatos aconteceram, e como Bob Dylan disse:
"Here comes the story of the Hurricane,
The man the authorities came to blame
For something that he never done.
Put in a prison cell, but one time he could- a been
The champion of the world."

"Esta é a história de Hurricane, o homem que as autoridades vieram a culpar. Por algo que ele nunca fez. Posto na prisão, aquele que poderia ter sido campeão do mundo"

Deixo então uma coisa pra se pensar, The Hurricane, poderia ter sido campeão do mundo, mas não foi, por que era um negro em uma época racista.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A dúvida


E no final o que é a dúvida para todos nós? Ter que escolher entre o preto e o branco? O caminho certo e o errado? A dúvida é ter que decidir que roupa usar? Ou quem sabe a profissão que vai seguir? Eu não sei, acho que a dúvida é tudo isso e muito mais.
Quando estamos na dúvida podemos fazer as piores escolhas de nossa vida, como também podemos fazer as melhores, mas e se for uma decisão que tem que ser tomada rápido, o que fazer? Se escolhermos errado as conseqüências não serão boas... Nunca são.
Mas e se o errado para alguns seja o certo para outros? Então no final ninguém tem noção nem base alguma para dizer se o mundo é quadrado e que o sol é maior que a terra, por que na realidade são coisas que ouvimos falar, são pouquíssimas pessoas que já foram até a lua, e viram a terra e sol. Mas é claro que não quero dar uma de ignorante e duvidar da ciência, só quis mostrar a minha idéia de uma maneira mais fácil se é que me entendem. Já passamos dessa fase da humanidade, e pessoas já sofreram por isso, aliás, Galileu foi uma delas, bom, já estou quase entrando no tema religião, mas pretendo parar por aqui, seria demais para minha mente pouco informada.
Mas e se a dúvida virar duvida? Duvidar de alguém, duvidar de todas as pessoas, isso poderia ser falta de segurança, ou poderia querer dizer que você é uma pessoa que zela a si mesma, o que é importante. Mas será que manter algo retraído em si durante muito tempo não faz os segredos virarem aflições? Pois uma segunda opinião sempre é boa, não é o que dizem? Mas e se não for? E se aquele outro velho ditado do “segredo de verdade só uma pessoa sabe” valer mais que esse? Então no final acabamos ficando em dúvida, as duvidas são tantas que algumas vezes é melhor deixar que o tempo as leve faça-as virarem fatos.
Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas, isso é o que eu mais tenho em minha vida.

Imagem: Google

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Então, o que é primeiro amor?

Sinceramente eu nunca tive um primeiro amor. Eu acho que amar, amar de verdade não são paixõezinhas da escola, ou pessoas que você vê e tem um click de "ele é o cara da minha vida". Não, não é assim, porque isso é passageiro, mais passageiro que as folhas no chão quando é outono. O amor de verdade tem que ser algo único, tão único que nunca mais possa acontecer de novo, algo que faça você realmente morrer por aquela pessoa, mas não uma morte trágica em que você morre a força ou na dúvida, você morre realmente por ela, protegendo-a de uma bala perdida, ou de um carro desgovernado, claro, isso é meio irreal, mas quando esse amor existe, acho que a pessoa não vai ter dúvida alguma se tiver sofrer para ver a outra a salvo. Isso é o primeiro amor, talvez o único, para aquele que morrer, talvez o último para aquele que sobreviver.
Tenho que dizer que nunca havia me aprofundado sobre o que era um primeiro amor, mas tenho que admitir que depois de pensar descobri que primeiro amor não é quando a gente tem dez ou onze anos, ou o primeiro garoto que ficamos, e talvez nem seja o que está em nosso pensamento nesse momento.
Por que o primeiro amor pode ser tudo, menos aquele que um dia será esquecido, primeiro amor é algo para ser lembrado. Independente de como você define ele. Independente de quando você o conheceu. Primeiro amor é sempre o primeiro amor.

Imagem: Google

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Blefes de uma menina mortal


Não acreditem no sorriso que trago em meus lábios, nem em meus movimentos de garota inocente, não acreditem na confiança que tento demonstrar e nem nas palavras que uso para forçar vocês a me amar.
Não acreditem que algo que eu diga seja real. Blefes, cartas na manga, sou só mais uma menina anti-social e mortal.
Todos tentamos esconder a verdade sobre nós mesmos. Alguns dizem ser poetas e outros hippies. Alguns dizem serem ricos demais, poderosos demais, enquanto outros não admitem que exista a inferioridade do pobre. A verdade é que ela existe. E não importa o que eu diga agora, ou daqui a cem anos, a realidade de minhas palavras ainda vai existir.
As pessoas dizem que podem ser felizes sozinhas, só que peço que elas tomem mais cuidado com suas palavras, pois muitas delas precisam diariamente de sua dose de ego para elevar a auto-estima, e sem isso a morte vem chegando aos poucos para cada uma, e não é uma morte física, mas uma morte mental, daquelas que pode afetar até as pessoas que a cercam. Por que afinal somos um bando de frágeis mortais, e quando menos se espera, não importando o que você está fazendo, escrevendo, lendo ou se está cuidando do jardim, a morte pode sussurrar no seu ouvido, e então não vai importar se você foi poeta ou hippie, ninguém vai cuidar se você foi o mais rico ou o mais poderoso, pois estará na mesma fila do mendigo que um dia bateu a sua porta.
Mas por favor, peço que não acreditem que algo que eu diga seja real. Blefes, cartas na manga, sou só mais uma menina anti-social e mortal.

Dedico o texto a Elsa Fanny Beier. Falecida no dia 11/12/2009.
A única Bisavó que um dia eu conheci.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Tempo, senhor da razão

Muitos dizem que o tempo é o melhor remédio, tenho que admitir que em alguns casos é mesmo, mas como eu disse, só em alguns casos. Quando "resolvemos" nos apaixonar por aquele cara que nem sabe que a gente existe, e perdemos dias e dias de nossa vida seguindo ele pela escola, pela rua, e dando suspiros e mais supiros sem ele nem aos menos saber o nosso nome, nós sofremos, passamos na frente dele pra ele ver que a gente existe, e que somos muito mais do que uma qualquer. Mas nada adianta, e esse é um dos casos em que o tempo é o melhor remédio. Quando paramos de ver essa pessoa, ou percebemos que não vai ter futuro algum, desistimos, e na maioria das vezes isso é bom. A cada dia conseguimos controlar mais o nosso coração e nossos pensamentos, e quando vemos não resta mais nada, podemos então agradecer ao tempo por ele ser tão bom, um remédio que todos podem usar, e nesses casos é muito díficil não funcionar.
Mas há outros casos que não podemos deixar a deriva do tempo. O exemplo mais básico é quando damos um tempo com o namorado, simplesmente não dá pra deixar de lado e ver o que vai acontecer. Claro, devemos esfriar a cabeça antes de tudo, mas temos que ter atitude, ir atrás, ver o que está acontecendo, dizer não a tudo isso é como negar a existência de coisas que não estão dando certo. Por isso temos que nos informar, e só depois disso tirar conclusões.
E depois quando descobrimos que nosso namorado não era tudo aquilo que pensávamos temos que ter somente uma certeza em nossa mente, com o tempo tudo, absolutamente tudo vai passar. As feridas irão cicatizar, e o coração vai voltar ao normal. Então podemos começar de novo, indo atrás daquele garoto que nem sabe que a gente existe ou namorar novamente com um cara que faz a gente sofrer. Mas o que precisamos mesmo saber é que o tempo está sempre a nosso favor, tudo depende somente de nós, saber como usa-lo é uma das maiores proezas do homem. Ele pode ser um grande remédio, mas garanto que também dá um ótimo veneno.
Imagem: Google

sábado, 12 de dezembro de 2009

Diário de viagem

Capítulo um: O aniversário

- Feche os olhos, assopre as velas e faça um pedido Joana - mesmo com o ambiente escuro com alguns pequenos abajures espalhados pela casa eu consegui identificar a voz da minha mãe.
- Ok mamãe estou tentando fazer isso - falei em um tom chateado.
 Ela podia ter um pouco de consideração por mim. Eu estava sofrendo, eram mudanças demais para mim. Senti as mãos quentes de Sara puxando meus cabelos para trás, ela tinha um amor enorme pelas minhas madeixas compridas e ruivas, apesar de nunca ter admitido, então nunca iria querer elas sujas de merengue.
Minha mãe sempre tentava caprichar ao máximo nos meus aniversários, só que nos últimos anos ela estava decaindo. Principalmente depois que o papai morreu, eu tentava não me culpar por isso, minha mãe sempre disse que a estrada estava com neve e que ele estava dirigindo muito rápido. Mas ela falava isso com tanta tristeza que não conseguia me convencer. Papai estava voltando de Aberdeen, ele era advogado, e sempre ia a cidade, ele e mamãe decidiram morar em Bellbag  que é um vilarejo pequeno e calmo, onde moro até hoje, literalmente até o hoje. Vamos nos mudar amanhã. Mas como eu ia dizendo, papai estava voltando de Aberdeen, com grande velocidade, pois sua filha estava apresentando um musical de natal, ninguém mais ninguém menos que eu mesma Joana Dixon, a verdadeira culpada pela morte de John Dixon, e a que fez Suzana Dixon sofrer por vários anos, sem poder nem cuidar de sua filha direito.
O negócio é que vovó Mary morava aqui em Bellbag até ano passado antes de ter que ir cuidar da tia Jill. Se não fosse por vovó não sei o que seria de mim, e depois que a sogra de mamãe foi embora ela não viu mais motivos pra ficar aqui, em um lugar que agora ela julga o fim do mundo. Então ela decidiu totalmente sozinha que iriamos para Edimburgo, sem nem ao menos me perguntar se eu gostaria de deixar aqui uns quinze mil amigos. Tudo bem, tenho qe admitir que Bellbag tem menos que quinze mil habitantes, mas só a Sara já valia por mil.
Fechei os olhos devagar para fazer o que Sara e mamãe tanto me incomodavam: um pedido. Assoprei com um suspiro as dezesseis velinhas e pedi com toda a paciência e força que ainda sobrava em minha mente para ficar aqui em Bellbag.
Abri os olhos e me virei para abraçar Sara e mamãe. Estávamos só nós três na casa em que eu havia vivido a minha vida inteira. Eu e mamãe. Duas medrosas passando noites e mais noites com medo de coisas inexistentes. Algumas vezes voando longe com aquelas histórias mágicas que ela lia para mim antes de dormir. A mesa de carvalho onde a torta estava era velha, mais velha que eu, papai que havia escolhido. As cortinas beges que tinham sido compradas a pouco tempo foram tiradas das janelas, mamãe tentava economizar com seu salário de enfermeira. Mas em alguns meses as coisas ficavam difíceis. Tudo na casa estava encaixotado, só o que sobrava era coisas que não podiam ser dobradas, desmontadas e guardadas em caixas de papelão.
Mamãe estava dando máximo de si em tudo isso, não havia dado muitas informaçoes sobre a mudança repentina de endereço, mas eu sabia que ela queria somente o melhor para mim. Ela se propôs a assistir filmes comigo, e até fez a pipoca, fiquei me perguntando como ela conseguiu essa façanha. Ela é tão hiperativa, para ela um segundo sentada é um segundo perdido, deve ser por isso que trabalha de madrugada, e eu passo minhas noites sozinhas. Passava, até ela pedir uma folga para ficar à noite comigo, se ela percebeu que eu estava mal, meu estado estava mesmo lastimável.
Mas o que mais me deixava mal era em deixar Sara sozinha, não que ela não tenha família, mas ela não nasceu em Bellbag, foi adotada aos seis anos, e não gostava muito da sua "mãe", ela era meio dura demais, o pai já era mais light, mas ainda assim era horrível saber que aqueles não era seus pais de verdade. E amigos era algo díficil de encontrar por aqui, principalmente alguém confiável. Bellbag nem uma cidade era consierada direito, então os habitantes falavam de tudo e todos, e se pudessem ainda botavam mais lenha na fogueira, o que era muito triste em um lugar que eu sempre considerei tão bonito.
Era quase meia-noite quando mamãe finalmente foi dormir, eu e Sara ficamos conversando até de madrugada, ela era minha vizinha fazia uns bons nove anos, e não era nada díficil sair da minha casa e ir até a dela em alguns segundos. Eu iria me despedir dela amanhã de manhã, mas tudo ficava mais díficil quando sabemos que é a última noite juntas.
- Olha pra mim Joana, olha nos meus olhos - ela falou erguendo meu queixo com suavidade, ergui minhas pálpebras e meus olhos foram em direção aos seus - eu vou estar com você sempre que você precisar de mim ok? Sempre, em um segundo eu vou até você nem que eu tenha que atravessar a Escócia ou o planeta terra. Eu sempre vou estar com você, entendeu?
-Eu te amo Sara.
O abraço foi tão forte que poderia ter quebrado algum membro não fosse pelo amor que passava de uma para outra. Tantos anos juntas e agora separadas. Com lágrimas nos olhos Sara voltou para casa, preparada para receber uma grande mijada de sua mãe.
E antes de dormir naquele colchão que estava no chão pronto para entrar no caminhão amanhã de manhã,  fiquei olhando para o teto, vi que meu pedido jamais se realizaria, eu concerteza iria para Edimburgo.

Imagem: Doação de fotos TheCL 

Continuação no meu novo blog o Quatro estações 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Uma pequena nota no jornal

Não, ele não deixaria passar essa, não dessa vez, já havia aguentado demais daquela mulherzinha insolente, e qual era a dela de dizer ao chefe dele que ele vinha roubando da empresa? Se achava melhor que todos não é? Pois então ele ia mostrar a ela quem tinha mais poder. Pegou a chave carro e foi quase aos pulos até a garagem, entrou ligeiro no automóvel, estava frio, um dia chuvoso e nublado, e o que ele mais queria agora era ligar o aquecedor e sair pela rua a fora atrás daquela garota tola. Havia pegado o endereço na firma e só agora descubria que a casa dela era mais longe do que esperava, um legitímo interior, estradas de terra, em que o carro derrapava sem parar, começou a ficar com mais raiva daquela mulher, a que ponto chegara só para dizer poucas e boas para ela? Só por que o presidente da empresa pagava um bom de um pau para ela e quase a estava promovendo ela não precisava ficar se metendo onde não era chamada. "Mas ela é esforçada", essas eram as palavras daquele velho irritante, ele tinha que morrer logo, quem sabe assim a empresa ia pra frente. Mas pelo seu físico e mental ele ia mais longe que setenta e oito anos, muito mais longe.
Estava ficando escuro e amanhã também teria que mandar lavar o carro, ela não podia ter arranjado um lugar pior para morar, aquilo era o fim. Literalmente o fim, porque a casa dela era a última daquelas estradas nojentas. 
Estacionou o carro com um movimento violento, e isso não importava porque se ali nem calçada tinha polícia é que não ia ter. Daria tudo por uma bota agora, aqueles calçados que ele usava eram caros, muito caros, e sem dúvida eles iriam estragar naquele lamaçal terrível. Saiu bufando do carro, ele já havia chegado até aqui, tudo bem que tudo que ela disse fora verdade, mas isso não importava, ela havia semetindo onde não podia, e agora ela teria de aguentar. O que fosse e como fosse.
Ele saiu do carro com a cara estampando as palavras nojo e horror. Foi erguendo os pés devagar, mas não tinha jeito, ia se sujar independente da velocidade que fosse. Enfim chegou a porta da casa, não havia campainha, então bateu na porta. Uma. Duas. Três vezes. Mas ninguém atendeu, foi até a janela afundando os pés no barro, e ao olhar viu que nada havia ali, a não ser alguns móveis velhos e gastos, provavelmente de segunda mão. Começou a chover novamente então ele voltou para o carro correndo tinindo de tanta revolta, e agora era de si mesmo. Ela não estava ali, e ele havia feito tudo isso por nada.
Saiu por aquelas estradas o mais rápido que podia, com o carro derrapando e ele cada vez mais nervoso. O parabrisa ficou embaçado, e a chuva vinha mais e mais forte a cada segundo, chegando ao ponto que os limpadores do parabrisa não ajudavam em quase nada, seus pensamentos ficaram entre a vontade matar a secretária e se matar. continuou dirigindo com uma velocidade rápida demais, ele não iria aguentar por muito tempo tudo isso e se aguentasse ele seria um homem muito, muito sortudo mesmo.
Pensou demais, e em menos de uma fração de segundo o volante não estava mais sobre seu controle, o cinto estava totalmente esquecido sem ser puxado em momento algum antes da partida. Uma valeta, e três capotadas. Como é simples e irônico o jeito que algumas pessoas morrem. Pois ele morreu assim. 
Uma pequena nota no jornal, sem ninguém que pudesse nem ao menos dizer que tipo de flores ele gostava. Dez pessoas no velório, e ainda por cima distantes. Uma secretária, um presidente de empresa, a empregada, alguns vizinhos e ninguém que pudesse dizer que ele havia amado.
Com tudo isso algumas pessoas ganham... E outras perdem. O coveiro foi pago, o padre foi pago, a secretária ganhou uma promoção e quem sabe São Pedro um a mais no céu.
A vida dele passou despercebida, ele foi ambicioso, tentou ganhar tudo pelo jeito mais fácil, e teve um destino cruel. Sem amor, mas com muita dor, será que não percebemos o quanto é inútil algumas vezes tentarmos ser superiores aos outros?
Agora lá vai ela, linda e bela. Um dia secretária e no outro... Sabe-se lá o que pode ser. Ela foi atrás, lutou pelo que queria, e tivera bons resultados. No começo sentiu-se triste por ser desse jeito, por que foi algo do tipo uma morte por uma promoção, mas se a morte era o destino dele e a promoção o dela, ela é que não iria recusar.
E agora lá vai ela, linda e bela, mais uma dominada por essa coisa monopolizadora chamada dinheiro. Filhos não. Marido não. Quem sabe só resta mesmo esperar a morte chegar. Apenas uma pequena nota no jornal, sem ninguém que pudesse ao menos dizer que flores ele gostava. E no seu velório terá uma secretária, um presidente de empresa, ainda vivo apesar dos oitenta e quatro anos, a empregada, alguns vizinhos e ninguém que pudesse dizer que ela havia amado. 
E se der sorte encontra no céu o homem que a fez chegar até ali. Claro, isso se ela conseguir chegar ao céu...

     Imagem: http://www.flickr.com/photos/vanessaclass/ 

          "Temos o destino que merecemos. O nosso destino está de acordo com os nossos méritos."
              Albert Einstein

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Menina condescendente

Quando eu tinha oito anos meu maior sonho era ser modelo, mas aos nove eu já havia percebido que eu não ia ser nem tão magra e nem tão alta o bastante para isso, foi ai que eu comecei a ler, lia tudo e mais um pouco que vinha pela frente, fui me decepcionando com todas as profissões que eu planejava ao longo do tempo.
Aos doze anos eu queria ser psicóloga, até achei que eu tinha nascido pra isso, era quase uma vocação, pelo menos eu pensava que era. Eu ainda lia, lia muito, parecia uma lunática indo na biblioteca municipal de três em três dias, eu lembro até hoje que com essa idade na sexta-série, escrevi um texto em que o tema era um carro do jeito que agente quiser, e eu amei meu texto, e li pra todo mundo na sala de aula, ganhei vinte balas da professora, e no final fiquei só com uma, digamos que eu não fui egoísta. Mas fiquei tão orgulhosa de mim mesma, sabe quando a gente treme de excitação por algo que conseguiu? Se não sabe eu espero que um dia descubra, pois é maravilhoso sentir orgulho por algo que nós mesmos fizemos.
Quando chegou os treze anos eu estava em um momento da minha vida um tanto neutra e sozinha, sem ninguém com que eu pudesse compartilhar o que eu pensava, e isso visto de um certo ângulo foi muito bom para mim, se não acho que não ia ter descoberto o que eu quer ser pro resto da vida (na verdade ia ter descoberto igual, mas eu quis dar um tom meio dramático). No final do ano passado comecei a escrever no meu blog, o mesmo em que você se encontra agora. Mostrei coisas que eu pensava, coisas do fundo do meu peito, escrevi besteiras, coisas bobas, e no final fui para os contos. Lá eu me perdi em algo indescritível, algo que todos temos e poucos usam: a imaginação. Havia descoberto o que eu tinha que ser: escritora.
Foi então que o maior dos maiores problemas começou, como me tornar escritora? Como escrever um livro?  Como arranjar tempo para isso?
Por que eu quero fazer uma faculdade, e ela concerteza vai englobar tudo e qualquer coisa que envolva palavras. Só que eu tenho medo, medo de que isso não de certo, medo de que no final eu me ferre. Quem sabe se eu fizer jornalismo as coisas se tornem mais fáceis... Mas as chances são tão mínimas, e sempre parece que eu não tenho capacidade de fazer isso.
Mas no fundo eu sei que todo mundo pode tudo, as pessoas podem ter o planeta nas mãos se elas forem fortes o bastante, persistentes o bastante e até mesmo inteligentes o bastante. Eu também sei que eu não tenho certeza se sou tudo isso, e é claro que também não quero ter o planeta nas mãos, mas se deixamos uma mísera chance escapar tudo pode acabar, e do nada o que vai restar será só sonhos e planos. Sonhos  adolescentes, de uma menina condescendente.
O que eu quero do fundo do peito é que meus sonhos não se percam no caminho da vida, não quero que eles sejam levados pelo vento ao lado de uma placa de trânsito ou até mesmo dentro de uma lixeira qualquer. Também não quero isso guardado a sete chaves ou enterrado como um tesouro.
Só espero que o medo não me vença, que o medo não vença os meus sonhos. Pois eles são maiores que isso, e vento nenhum leva eles de mim. Nem mesmo aqueles que tiram toda a nossa coragem. Por que podem apagar a luz, mas eu tenho certeza que eu também posso mostar que eu sei andar no escuro.

Iamgem: Clarice Lispector escrevendo

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Sombras da noite

- Não, eu não quero que você faça isso! - ela falou séria, sem nenhum tipo de brincadeirinhas bobas.
- Mas porque?
- Pelo menos dessa vez me escuta, você não pode ficar com ele, está entendendo? - qual era a dela hoje? Eu não queria brigas, mas ela já estava me incomodando com essa história.
- Qual é Déb, só por que você é encalhada não quer dizer que eu tenha que encalhar também.
- MANUELA! - ela gritou, e isso me assustou, ela sempre me chamava de Manu, e agora vem ela com essa história de MANUELA! - eu estou falando sério, isso não é brincadeira, e não tem absolutamente nada a ver com os meus relacionamentos que nunca dão certo entendeu?
- Olha Déb, não quero que você fique chateada comigo não, mas é impossível eu não ficar com ele, ele é tão lindo, tão pefeito, tão tudo - nossa, ele era muito melhor do que isso, mas era melhor não chatear a Déb ainda mais.
- Por isso mesmo Manu, não fique com ele, eu vi, eu vi o que aconteceu, e... - ela estava chorando? A minha amiga Déb estava chorando? O que estava acontecendo afinal? A Débora nunca chorava, é como dizer que uma pedra se mecheu. A voz dela tremeu, mas ela continuou a falar - e, foi horrível, ele, ele fez aquilo com ela.. - seu choro era mais forte agora, e era verdadeiro, o que eu iria fazer em relação a isso? Então só a abracei, um abraço forte poderia reanimar qualquer coração, mesmo eu não entendendo bolhofas do que ela falava.
Ela se acalmou, mas estava com os olhos meio inchados, e eu morta de curiosidade não ia conseguir segurar minhas perguntas mais nenhum minuto.
- Mas Déb... - eu tentei ir com calma, mas era díficil - o que foi tão horrível?
Ela olhou em meus olhos séria, inspirou tanto ar que era como se fosse os meus pulmões, e não os dela. E depois expirou devagar e lentamente, abrindo a boca para falar:
- Eu quero que você saia comigo hoje à noite, você só vai acreditar vendo.
E então assim foi, era sabádo de noite, e eu fui dormir na casa dela, era quase meia-noite quando abrimos devagar a janela do quarto dela. Eu estava com um pouco de fome, porque a Déb é vegetariana, e eu sou carnívora ao extremo, meu estômago dava umas reviradas de vez enquando, mas nada que eu não pudesse suportar.
Pulamos a janela tentando ao máximo não fazer barulho, e quando vi já estávamos no escuro pelas ruas sujas da cidade, eu não sabia para onde ela estava me levando, mas não era nada bom, ali só a luz da lua que iluminava nosso caminho, e eu já sentia um friozinho chato nos ombros, mas nada que pudesse realmente me chatear... Até agora.
De repente a Déb se abaixou atrás de um prédio, prédio que eu por acaso não consegui identificar a cor, ela estava quase de joelhos naquela rua fedorenta, então me olhou e baixou os olhos mostrando que eu tinha que fazer o mesmo, eu hesitei, e ela com uma cara de braba puxou meu braço, eu soltei um gritinho parecido com o som de um cachorro estrangulado, ela com rapidez botou a mão na minha boca me fazendo parar de gritar, finalmente eu percebi que aquilo tudo era muito pior do que eu esperava.
Se passaram uns bons 15 minutos até ouvirmos alguns barulhos de passos vindo em nossa direção. Eu fiquei assustada atrás de Déb, mas ela me impediu de gritar falando:
- Silêncio Manuela, é agora, olha ligeiro, se não você vai perder tudo, e nada vai adiantar tudo isso.
Eu fui devagar olhar pelo canto daquele prédio vazio e escuro. Então eu vi. Aquele era o meu garoto perfeito, e o que era aquilo na sua mão? UMA FACA! Não, uma faca não, podia ser tudo, mas uma faca, mas eu pude suspirar de alívio, a faca estava limpa, mas o que ele estava fazendo numa noite de sabádo quase uma da manhã, em uma rua escura e sozin... O que era aquilo? Um carro parando? Sim, um carro escuro, com cara "sou da máfia", e gritos, sim, gritos de mulher. Apertei os olhos pra ver quem era, era a Roberta, a garota ruivinha, que eu não conhecia direito, mas sempre foi muito simpática comigo.
- Déb, o que é isso, o que está acontecendo? - minha voz era um sussurro quase travado.
- É o que eu te disse Manu, ele faz coisas horríveis com essas garotas.
Eu fiquei um tempo olhando para o nada só pensando, peguei meu celular, tinha que ligar para a policía.
- O que você vai fazer Manu?
- Eu vou ligar para a... - não deu tempo de eu terminar a frase, o golpe foi rápido de mais, botei a mão na cabeça, e senti uma gosma nojenta. Sangue. A última coisa que vi antes da escuridão, foi Déb caindo em meus pés, dando um gemido silencioso. Então como ela já sabia, a vaca ia pro brejo.
Acordei assustada com as mãos e os pés atados, olhei para o lado direito e lá estava a Débora, ainda inconsciente. E estremeci ao olhar para o lado esquerdo, a Roberta, antes viva, estava toda suja de sangue, e seu pulmão não se enchia mais de ar, ela não respirava. Estava morta.
Ali eu percebi que eu não teria outro destino em minha vida. Fechei os olhos esperando a morte chegar.
Imagem: Google

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Abraço eterno

Tudo era lindo e maravilhoso, o amor, o vestido branco, o bolo enorme e o tapete vermelho em que eu pisei com tanta elegância, ainda lembro de tudo isso como se fosse hoje. As luzes brilhavam naquele grande salão, e eu sentia o cheiro de seu perfume com um leve toque de suor, meus pés dançavam no ritmo da valsa tantas vezes ensaiada, e aquele era o momento, já haviamos dito sim, e prometido nos amar para sempre, e sabiamos que só a morte iria nos separar, se isso fosse o bastante.
Eu já sabia qual seria o sabor da torta, aquela enorme torta branca, demonstrando toda a pureza que eu perderia em minha lua-de-mel. Perdi a conta naquele noite de quantas pessoas pisaram na cauda de meu vestido ao me abraçarem, até eu finalmente resolver tira-la, e claro após o casamanto aquela cauda nunca mais foi a mesma, ainda tenho ela guardada em algum lugar aqui de casa, a cauda, e o vestido, o branco e sonhado vestido, aquele em que depois da festa ao tira-lo podemos ver grãos de arroz caindo no chão do hotel, e então a gente ouve a voz do novo marido vindo do banheiro "o que você deixou cair?", eu ria, um riso alegre de recém-casada, depois haveria um milhão de piadas sobre isso, com os amigos, os pais, e até mesmo alguns primos.
Na lua-de-mel claro, só existiu perfeição, desde quando ele me carregou no colo para entrar na porta, até o momento em que arrumávamos as malas para voltar pra casa, sim, a nossa casa, a casa nova, que finalmente poderiamos inaugurar como pessoas casadas, um marido e uma mulher, amantes, amigos, simplesmente dois em um.
Nossos dias juntos foram os mais maravilhosos possíveis, e eu não teria outra maneira de descreve-los. Todos os toques, todas as palavras, todos os sonhos planejados, ainda estão fervendo em minha memória, só se passaram sete meses desde o dia em que nos tornamos marido e mulher, e agora eu estou aqui, na mesma igreja em que nos casamos.
E mesmo com todas as lembranças vindo à tona, tenho certeza que nada foi em vão, pois mesmo olhando para ele agora dentro de um caixão, frio como pedra, sei que ninguém, nem nada nesse mundo poderia me amar como ele me amou, e eu não amarei mais ninguém em minha vida com tanta intensidade e nem tanta paixão, não me entregarei a mais ninguém de corpo e alma como me entreguei a ele, e tenho certeza que um dia vou estar ao lado dele, e que todo esse sofrimento e toda essa dor cessarão no dia em que eu ao seu lado ficar, e nesse dia vou olhar mais uma vez em seus olhos, mostrando um amor ainda vivo, não importando quantas décadas se passarem até lá, e lá de cima vamos olhar para o nosso filho, o filho que agora levo dentro de mim, e sorriremos novamente um para o outro como se o mundo ao redor de nós tivesse sumido e nada nem ninguém pudesse nos separar.
Eu o amo, e pra sempre vou amar, e não há morte, e nem vida alguma que possa impedir, pois nosso amor vai muito além de tudo isso. Da vida e da morte juntas, ele é mais forte, mais profundo, mais intenso, mais suave, e não há ser algum que possa acabar com isso, ele é um amor sem fim. Eu o amo, e pra sempre vou amar.

                                                                                           Imagem: Google

domingo, 6 de dezembro de 2009

Quanto alguém pode esperar.

Já havia esperado tempo demais, não aguentaria mais nem um dia sem informações, ou qualquer coisa que desse sentido a sua vida, saiu sem pensar direito de seu quarto, correndo rápido para o comôdo da casa que um dia fora o escritório de seu pai. Parou em frente a porta, olhando com indecisão, abrir ou não abrir. Abrir.
Entrou quase nas pontas do pés, suando de nervosismo e em um movimento rápido ela abriu a primeira gaveta da mesa para tentar descobrir o grande segredo que todos escondiam dela, mas ao abrir, ela não encontrou nada de especial além de uma folha de papel. Uma folha de papel limpa, branca e pura, que grande segredo seria esse então?
Nada tinha ali, nada que pudesse fazer alguém sofrer, ou voltar a viver, nada, nada e nada. Aquela era a única gaveta com chave, a única que poderia ter algo importante, a única em que alguém poderia esconder algo dela. Ficou com raiva, raiva das pessoas que mentiam, raiva das pessoas que amavam, raiva das pessoas que viviam. Começou a tirar as gavetas daquela mesa, como se pra ela nada daquela casa tivesse algum significado, folhas se esparramaram no chão, e ela sentiu mais raiva ainda, só que agora dela mesma, porque alguém teria que limpar aquilo, e esse alguém seria ela.
Ela sentou no chão, encostada na parede, botou a cabeça entre as pernas e as lágrimas lhe escaparam, lágrimas silenciosas, lágrimas de carência, ninguém havia deixado nada para ela procurar, ninguém se quer pensou que um dia ela iria ir atrás de seu passado, devagar se levantou, tentando parecer mais segura para si mesma, já que no fim era isso que importava para todos, o quão segura alguém poderia ser.
Foi recolhendo lentamente os papéis esparramados, alguns eram papéis em branco, alguns eram cartas esquecidas ali com o tempo, nunca havia se quer pensado em abrir alguma dessas gavetas, mas ali estava ela agora, recolhendo a vida de alguém que foi deixada no chão, a deriva de quem quer que fosse, em sua mão as cartas passavam, rapidamente, algumas com mais curiosidade ela parava para olhar, mas essas novamente iam direto para a gaveta. Então em um susto se deparou com uma carta em que havia o seu nome, Ruth, ela ainda estava fechada, segurou a carta como se fosse um tesouro, guardou rapidamente as outras coisas que estavam no chão, colocou as gavetas em seus lugares, e tudo parecia intocado quando ela saiu de lá.
Correu em passos largos para o seu quarto, ninguém a incomodaria lá, trancou a porta, sentou em sua cama, e ficou olhando para o que tinha em sua mão, em seu olhar brilhava a indecisão, abrir poderia fazê-la sofrer, e deixa-la fechada... Nem queria pensar em deixa-la fechada, havia passado tempo demais, tempo demais até para ela que tinha um certo grau de paciência quase interminável.
Então delicadamente Ruth foi abrindo a carta, palavras que estavam ali a deriva do tempo, esquecidas, e agora novamente descobertas pela sua verdadeira dona, a que devia recebê-las com todo o carinho, mas ao abrir a carta, com as mãos tremulas, percebeu que a palavra carinho nada tinha a ver com o que estava escrito ali. Pulou da cama, e só de pois de algumas tentativas falhas conseguiu abrir a porta do seu quarto, saiu aos gritos, procurando alguma alma que pudesse ajuda-la naquele momento tão desesperador.

Imagem: Google

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Suplício

- Ela tem um coração de ferro - ela falou em um tom de piada, olhando para mim despreocupadamente, chegou a dar mais ênfase batendo a mão fechada no peito. Olhei para ela e ri de leve, como se ela tivesse contado algo engraçado, e até um certo ponto estava mesmo. Mas como eu disse, só até certo ponto.
À noite quando fui dormir fiquei inquieta embaixo dos cobertores, "ela tem um coração de ferro", "ela tem um coração de ferro", a frase revirava em minha cabeça, não conseguia enquadrar ela em nenhum lugar, era como se não servisse ali. Eu não tinha um coração de ferro, eu não tenho um coração de ferro, eu só me disciplinava para não ser de tudo e de todos, me disciplinava para não me ferir, para não ferir ninguém. A verdade era que meu coração clamava por alguém, mas só o coração, eu era mais forte do que essas exigências e todo esse suplício. Eu sabia que podia resistir a tudo e a todos, mas meu coração não, e essa era a única coisa que contradizia todas as palavras que saiam seguras por minha boca.
A verdade então era só uma, o "coração de ferro" não se encaixava em mim, não era para mim, e o que me sobrava era seguir todos os instintos que eu renegava a muito tempo, deixar eles abandonados, em um canto qualquer era mais fácil do que encarar de frente a situação, sempre é mais fácil, independente da situação.
Mas eu não iria seguir todos os meus instintos, eu era mais minha do que de qualquer um, e queria continuar assim, mas o meu coração não. Maldito seja ele então, vivi atrás de um nada, tentando ser forte e não deixando que nada me abalasse, e principalmente o abalasse, e é assim que fui correspondida.
Mas no fundo, bem no fundo, eu sei que eu amadureci, e meu querido amigo coração também, ele as vezes é meio ruim comigo, fazendo escolhas erradas e tudo mais, mas tem lá suas qualidades, e uma das principais é não ser de ferro, ele é muito flexível, e atua muito bem quando quer, ok, quando eu quero, pois o coração as vezes se engana, e muitos não querem mostrar o que realmente sentem, e eu sou uma entre esses muitos. Mas é melhor que seja assim, não quero ser tão transparente que as pessoas quase possam ver o que está atrás de mim, as vezes algumas mentiras bobas são mais seguras do que as verdades puras e não tão doloridas, mas ainda essas verdades arranham o peito ao serem botadas para fora.

                                   Pintura: Suplício por alívio (Munch)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Gueixas, becos e quimonos alaranjados.

Ainda posso lembrar da primeira vez que a vi, eu era só mais um turista qualquer, em um beco qualquer, em uma rua no japão. Porém eu em nenhum momento me referiria a ela como uma qualquer, seus olhos levemente puxados e seus cabelos longos e negros faziam homens como eu se ajoelhar ao seu redor e implorar por um beijo. Mas não, eu não iria me humilhar dessa maneira, não na frente dela. A primeira vez que a vi ela fugiu de mim, eu não entendia porque, será que era casada? Será que tinha medo? Não queria se envolver? Eu não sabia, eu simplesmente não sabia.
Estava andando por aquelas ruas em que o cheiro de esgoto é insuportável, onde tudo parece cinza e marrom, e os homens vão de cabeça baixa com olhares infelizes, alguns tem barbichas, outros não. Então a vi, ela reluzia em comparação a outras mulheres daquele lugar, tão linda, tão limpa, com seu quimono alaranjado, eu não entendia o que ela fazia ali. Tentei me aproximar, e esse foi meu erro, ela fugiu, toquei em seu braço para dizer um oi, conversar, ela saiu correndo, como alguém que acabou de ver um monstro, mas eu não era um monstro, não, eu não era. Eu era só mais um americano qualquer conhecendo outros povos, tentando parecer introsado.
A segunda vez que a vi mudou tudo, minha opinião sobre ela, sobre o mundo, e sobre meu estado emocional. Voltei para aqueles becos, queria vê-la novamente, não poderia sair desse país sem olhar de novo naqueles olhos castanhos. Estava tirando algumas fotos, quando de relance minha máquina a pegou no visor. Não, eu não tirei a foto, só baxei a câmera e fiquei a contempla-la, maginifíca, pura e simples, maravilhosa. Ela não me via, então dessa vez não fugiria, eu a segui pelas ruas imundas, olhando as vezes para o chão, uma hora ou outra eu sabia que iria tropeçar, mas antes disso acontecer, ela entrou em um casebre,ele não era nada diferente dos outros naquele quarteirão, sujo, feio, marrom e cinza, uma mistura horrível para olhos humanos.
Então ouvi uma voz gritando com ela, era de uma mulher, mas tenho certeza que não era sua mãe, pois era quase da sua idade, não dava pra ouvir direito, eram relances rápidos e eu ainda era lerdinho no japonês, não sabia o que fazer, mas menos de um minuto depois ela apreceu a porta, e num susto me viu.
- Por que você foge mim? -eu havia ensaiado essa frase antes, não sabia que resposta esperar.
- Tem que ser assim, eu sou feita para isso.
- Feita para o quê?
- Eu sou uma gueixa, por favor se afaste de mim, já tenho problemas demais.
Essa foi a revelação, uma gueixa, eu sabia que gueixas eram mulheres que estudavam a arte da sedução, do canto, da dança, mas não esperava encontrar uma.
- Uma gueixa? - fiz uma cara de não-acredito-que-você-faz-esse-tipo-de-coisa.
- Uma gueixa, e não uma prostituta, nós seduzimos e não transamos, com licença, preciso sair daqui.
E então se foi, e esse foi meu único e inesquecível momento com uma gueixa, linda, sensual e definitivamente insuperável.

Imagem: Google
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